Um dia, uma janela e nesta janela a visão plena dos campos abaixo, as montanhas azulando no horizonte e o céu, sempre o céu.
Se eu desenhasse a paisagem, certamente iniciaria do além-horizonte e viria, viria... pois o anverso do horizonte somos nós.
Viria esgueirando as montanhas, os contra-fortes das alterosas. Galgaria picos e me enveredaria pelos vales e dos vales ao campo e campinas.
Amo relevos, montanhas, morros, picos e montes-mor. Me aborreço com planícies e planaltos. Não sei por quê, mas é assim.
De lá, viria até mim, mas antes, encontraria você no caminho, pois, estarias próximo à minha janela onde tenho plena visão dos campos, das montanhas azulando no horizonte e do céu que a tudo abarca.
Eu vejo você por ali. Caminhando pelo tapete florido. Talvez permeados com flores-do-guarujá, tão simples e harmoniosas. Talvez em um campo de margaridas...ou girassóis. O importante é que caminhas entre o gramado verde, com o vento acariciando-lhe a face dourada. Seus olhos tristes e o sorriso lindo que ocultas atrás dos lábios, procurando algo ou alguém.
Eu aceno e você passa. Consigo arrasta a solidão, a dor de um amor perdido ou desgarrado. A dor dos viventes em sua luta pela luz.
Eu falo que a admiro, mas você não sorri.
Sua arte, você a tem sobre os ombros ou acima da nuca, qual espada de Dâmocles.
Argumentar que ser artista, deixar fluir a arte pelos dedos é uma benção, não a convence. Muitas vezes a arte realiza, consola e... fere.
Acredito que se ela, a sua arte a feriu, não foi por ser um punhal. O que aconteceu foi uma circunstância da vida, onde nos enveredamos por sendas nunca dantes trilhadas, sem culpa, seguindo o fluxo, a torrente. Um desgoverno, algo que sempre nos escapa.
Eu a vejo chorar e não posso abraça-la agora . Queria poder sentar ao seu lado, em um banco de pedra, à sombra de um grande jequitibá. Ali, eu a teria com a cabeça no meu colo e lhe contaria coisas tolas sobre minha infância, sobre meu primeiro bicho de estimação, ou as coisas ingênuas que fiz e os sonhos que abandonei ao longo da vida. Eu perguntaria sobre seu/nosso primeiro livro, aquele que nos ensinou o “A”, o “B” e o “C”. O meu tinha um nome: “Caminho Suave”, e lá havia uma seqüência de frases: “Abelha – A, Elefante – E, Igreja – I...
Quanta bobagem para te escrever no dia do seu aniversário. Mas...Eu sinto vontade de falar-te. Dizer-te.
Sorri quando me contou sobre como você fez as “malinhas” e pensou em fugir de casa... com apenas seis ou sete anos. Senti imensa tristeza ao relato daquele amor... que evadiu-se por não ter a coragem, a sua coragem de enfrentar a sociedade em prol do amor.
E enquanto você, tão pequena já lia seus “tratados” pois seu pai a queria “na seara das leis”, eu lia as aventuras do “Esquilo Serelepe” ou preenchia as palavras cruzadas que minha mãe me comprava que tinha um nível para crianças, o nível : PICOLÉ.
Minha mãe, pós graduada no ofício, preenchia o nível: “Gênio, Crânio ou “Seção Butantã, Só Para Cobras”.
Cessemos as divagações.
Enfim, eu a vejo passar pela minha janela. Eu a chamo e você me olha. Seu olhar triste me diz sobre sua vida, suas realizações e a solidão densa que a consome.
Peço que se aproxime para que eu possa tocar-lhe o rosto, as mãos. Ficamos mudas, silenciosas com as mãos dadas.
Não importa o que aconteça, eu estarei ao seu lado, segurando sua mão.
Mesmo que seja por uma janela virtual, pois, bem sabes o quanto o que se chama virtual pode ser real em nós.
Nosso universo está em nós. Pelas janelas que abrimos e vislumbramos outras dimensões, pessoas, vidas que passam ou apenas cessam.
Se eu pintar a paisagem que vejo pela janela, eu a faria com os pigmentos da minha mente, que nunca esmaecerão, pois a paisagem e você em primeiro plano, estarão gravados perpetuamente na minha retina e minha alma.
E esta, você sabe, é imortal, como a sua.
Não sei escrever poemas. Eu não sei escrever, apenas sentir.
Feliz aniversário. 15. Junho.2005